quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Cicloviagem de Férias 2011 - Parte 04

Capítulo 04

De Três Corações à São Thomé das Letras

Ultimo dia de pedal. O corpo cansado, apesar de sempre dormirmos cedo, aquela preguiça matinal, comum em (quase) todo mundo...

Pulamos da cama um pouco tarde e descemos as escadarias pra desjejuar.

A mesa do café pareceu-me não muito farta, mas seria suficiente pra gente fazer os 43km que separavam a agitada Três Corações da pacata STdL.

Entre um biscoitinho e um gole de café, eis que mais uma vez somos surpreendidos com a Senhorinha Misteriosa. 
Sem muita cerimônia, ela entrou no refeitório, escolheu um lugarzinho pra sentar e foi atacar a mesa!

Deixamos a Senhorinha "fila bóia" tomando seu café e fomos fechar os alforges, pra finalmente cair na estrada.

Mas antes disso, passei numa farmácia logo ao lado do hotel para comprar isotônico e acabei aproveitando pra pesar minha bagagem. Até aquele momento, não fazia ideia de quanto peso estava carregando.
Tirei os dois alforges e os empilhei com a bolsa de guidão sobre a balança e aí tomei um mega susto:

Sim, crianças...quase 14kg só de bagagem.
Mas ao contrário do que se espera, isso não me desanimou. Me deixou feliz pra caramba! Afinal, carregar 14kg de carga + 16kg de bike + 72kg de Tux por vários morros me fez sentir-me forte.

Cheio de orgulho, subi na bike e, junto com meus dois Intrépidos Amigos, seguimos pra ultima parte da trip.

A brincadeira já começava na saída do hotel. Uma subidinha até uma praça, onde pedimos informação pra dois Policiais. Seguimos as instruções e nos deparamos com uma grande e inclinada subida.
Com as pernas frias ainda, imagine como foi vencê-la...

Uma segunda parada pra confirmar se estávamos indo na direção correta (sim estávamos) e logo pegamos uma reta sem acostamento, mas com bom asfalto. Não demorou muito e vimos a placa da Estrada Real.
Uma paradinha pra matar a curiosidade:

Foi bacana essa parada, pois o John nos falou sobre um de seus planos de viagem que passaria por parte da Estrada Real. Já deixou a gente com um ar de "vamos planejar a próxima?!?!"

Seguimos pedalando e a cidade foi sumindo, dando espaço pra grandes campos que estavam sendo arados, provavelmente pro plantio de milho e, mais a frente, uma Penitenciária (nem sabia que Três Corações tinha uma...).

No começo, paramos bastante pra fotografar coisinhas inusitadas, como a casa de um Jõao-de-Barro (ou não...) 

A cidade láaaa longe...

E é claro: Nós! (devidamente uniformizados)



A medida que avançávamos, a paisagem se alternava entre os campos de cultivo e a vegetação nativa (ou não...afinal não sou entendido disso).

Chegamos a uma pontezinha estreita e resolvemos parar junto a uma sombra um pouco à frente. Mal encostamos no barranco e chegou um cachorrinho...

Olhem só essa carinha...

Ele parecia faminto, tadinho. Oferecemos ao Grisalhinho o que estávamos comendo: barrinha de cereal, bananinha e água.
Ainda tiramos uma foto em grupo com o pequenino, que a essa altura já era nosso amigão!

Precisando seguir viagem, nos despedimos do Grisalhinho e seguimos pedalando. Mas ao olhar pra trás, uma cena bastante comovente: Ele estava nos seguindo!

Nós três ficamos preocupados, pois o cachorrinho não parava de nos seguir, ladeira a cima, correndo vigorosamente. Então, com um aperto no coração, demos uma forçada no passo, afim de despistar o pobre cachorrinho...

Depois que o Grisalhinho sumiu de vista, voltamos ao passo mais tranquilo, pois começavam a surgir algumas subidas que exigiram um pouco mais das nossas pernas.
Também surgiu essa placa! Ah, como adoro placas que indicam a Km faltante pra meta! hehehe!

Com metade do caminho pela frente, pouca sombra, muito calor, seguimos pedalando e papeando.
Em algum momento, apareceu uma abençoada sombra que nos garantiu um descanso um pouco mais longo, uns 15 minutinhos mais ou menos.

A medida em que nos aproximávamos da meta, a paisagem ia se tornando estranhamente branca. São Thomé das Letras tem sua economia baseada na extração de pedras (não me perguntem o tipo...sou um ignorante no assunto. hehe).
Ainda longe, mas já estava ao alcance dos olhos...
Paramos várias vezes pra tirar fotos. Essa em particular deu trabalho, pois ventava forte e minha bike, mesmo com pezinho, não parava em pé pra gente tirar a foto automática.

Uma das mais belas fotos que o João tirou. Notem a nuvem no centro da foto.

E cada vez mais, o "branco" da cidade ia se aproximando, assim como a ansiedade para chegar a cidade.

Uma sequencia de decidas bem bacana surgiu do nada. Isso nos deixou muitíssimo preocupados, pois já sabe, né: tudo que desce, tem de subir! hahaha!

Chegamos até a base da enorme ladeira de 3km até o Portal da Cidade. Resolvemos parar, respirar fundo e nos hidratar antes de começar.

A subida era tão absurda, mas tão absurda, que tivemos de parar 4 vezes durante a escalada.

A primeira parada foi num recuo da pista, depois de vencido o primeiro km. Cheguei ali com o coração na boca, logo os outros dois intrépidos chegaram. Foi nesse momento que senti todo o cansaço acumulado ao longo da viagem...
Respirei fundo, juntei forças e vamos continuar...faltam mais 2km!

A segunda parada foi (pelo menos pra mim) uma parada de segurança. Diferente da primeira parada, cheguei nesse ponto com vontade e ânimo absurdos de vencer logo a subida, mas algo me dizia pra ter calma e subir sem pressa...

A terceira parada, foi junto a entrada de uma das muitas pedreiras existentes no local. Eu queria subir de uma vez até o Portal da Cidade, mas a preocupação em chegar bem falou mais alto (acho que em todos nós).

Bora, tá acabando...
Chegamos numa curva e vimos o Portal da Cidade, mas aí notamos que, depois do Portal, havia mais um tanto de subida, então paramos alguns metros antes, pra tirar fotos, já que não havia meios de fotografar durante a subida.


Missão (quase) Cumprida! Estavamos em STdL!

Passamos um tempão contemplando a vista, analisando o tanto que subimos e, creio eu, fazendo a retrospectiva do pedal até aquele ponto.

Fui tomado por uma sensação de contentamento que não tinha como explicar!

Mas ainda tínhamos o restinho da ladeira pra subir!
Esse pedaço foi bem rápido, pois a inclinação já era menos cruel. 
A parada foi em num boteco em frente a Rodoviária da Cidade (que estava vazia...imaginem só).

Entramos no boteco e já fomos alucinadamente atras do nosso troféu: Uma Cerveja Gelada!
O John nem pensou muito, pediu uma garrafa de Brahma e disse que aquela não dividira com ninguém. Já eu, comecei a olhar o balcão e vi que tinha uma das minhas prediletas.

OW, Tio...solta essa Heineken pra mim!!!

Como tinham duas, o Pedrão também pegou uma...
Ah, tomar uma Heineken geladinha depois de pedalar quase 400km foi realmente um belo troféu!

Terminamos de beber, conversamos com o dono do boteco e saímos em busca de hospedagem.
Paramos em uns dois ou três lugares e acabamos fechando na "Pousada Sol e Lua".

Hospedagem agilizada, hora do banho e do rango. A fome tava grande.

Pedro e eu fomos procurar um caixa-eletrônico Bradesco pra sacar nosso rico dinheirinho e o John ainda demorou um tanto no quarto.

Descobrimos que não há agencia do Bradesco em STdL, só um correspondente bancário, que no caso é a Agência de Correios da Cidade.
Ao chegar lá, o sistema estava fora do ar, e pra piorar, o correio estava a pouco mais de uma hora para encerrar as atividades.

Como não tinha muito o que fazer, fomos almoçar.
Pedimos os pratos, outra cerveja e ficamos aguardando. Como iria demorar um pouco, Pedrão decidiu correr lá no Correio pra ver se já dava pra sacar dinheiro.

Pouco depois dele sair, o John apareceu na praça e o Pedro voltou com boas notícias: sistema restabelecido.

Corri no Correio (olha só que bom trava-língua) pra sacar meu dinheiro e voltei quando os pratos estavam sendo servidos (que timming, hein?).

Depois do almoço, fizemos um rolé de reconhecimento na cidade e constatamos que estava tudo muito quieto.

Voltamos para a Pousada, afim de nos agasalhar melhor (tava esfriando por lá) e a noite saímos pra jantar e descansar.

O dia seguinte começou um tanto decepcionante, pois o tempo fechou e uma fina garoa caia.
Mas ainda assim, demos um jeito de aproveitar muito! Conseguimos visitar a Pedra da Bruxa e demais formações rochosas do centro da cidade, tendo como guia alguns cachorros da cidade.

Caramelo
Everest
Esses dois foram nossos companheirões durante o passeio nas Pedras, principalmente o Caramelo.
O Everest ganhou esse nome pois ele escalava as pedras por locais bem difíceis...cachorrada esperta!

Olha aí a Dupla nos guiando!
Olha só os lugares onde essa cachorrada nos levou:








Depois de tirar um bocado de fotos (isso é só uma pequena amostra...), descemos até a cidade novamente pra comer um torresmo, tomar uma cerveja e papear.
Durante esse papo, apareceu um Maluco, o Alex.
Conhecido como Estrada, esse Maluco nos abordou com um pedaço de arame de cobre, um alicate de bico e uma tremedeira absurda.

Ofereceu seus serviços de artesão [sic] pela módica quantia de R$ 1,00.
Como o Maluco foi muito gente boa, pagamos pra ele nos fazer anéis de cobre, enquanto ele nos contava algumas das maluquices dele e nós contávamos as nossas...

Terminado o serviço, ele foi embora, tomar sua pinguinha e continuar sua vida de Maluco Beleza!
Olha aí a "arte" do Alex Estrada!
Confesso que foi muito bacana a conversa com o Maluco Estrada. Um cara sem eira nem beira, improvisando pra poder viver, sem se preocupar com nada que não seja imediato: Se tem fome, arruma o que comer, se tem frio, o que vestir, se tem sono, onde encostar a cabeça e por aí vai.

É claro que não pretendo virar mais um "Maluco Beleza", mas é notável que uma pessoa completamente marginalizada e (pelo que nos pareceu) destruída pelo álcool, consegue viver com um largo sorriso na cara!
Pelo menos pra mim foi algo que me deixou a pensar sobre um bocado de coisas.

Depois disso, fomos vasculhar lojinhas do centro, que já parecia bem mais animado, já que os turistas estavam chegando.
Andamos pra caramba na cidade e após esse longo passeio, encontramos o "Seu Ernesto".
Esse Senhor é um dos muitos Jipeiros/Guias que a cidade dispõe.

Por uma quantia X (em nosso caso, R$ 35 per capita), ele faz um passeio bastante bonito e interessante.
Escolhemos fazer o "roteiro seco", que incluía um belo Tour pelas Pedreiras, uma visita a Ladeira do Amendoim e a Gruta do Carimbado (a tal caverna que, segundo a lenda, chega até Machu Picchu), passando pela Cachoeira das Borboletas.
O "Seu Ernesto" é uma figura e tanto. Senhorzinho de madeixas brancas, com muita história pra contar, simpático, paciente e extremamente gente boa!
Contou-nos vários "causos" da cidade, não nos apressou em momento algum durante o passeio e não tirava o sorrisão largo da cara!

O Jipe

E o Dono do Jipe, Seu Ernesto.
Os Intrépidos em uma das Pedreiras


Pedrão testando o mito da Ladeira do Amendoim
Entrada da Gruta do Carimbado

Cachoeira das Borboletas (tava precisando chover por lá)



Tiramos tantas fotos, que não daria pra postar todas aqui.
Um dia e tanto, apesar do tempo esquisito, foi divertidíssimo conhecer um pedaçinho de STdL.

A noite, saímos pra jantar e depois fomos a um barzinho que estava rolando um Rock.
Entramos no lugar, pedimos nossas cervejinhas, curtimos muito o som da banda que tocava ao vivo (na verdade rolou uma grande Jam Session, com direito a uma versão Rhythm & Blues de "O Trem das Onze", batizada como "Adoniran Blues", flauta transversal, flauta doce e até a Didgeridoo (um instrumento de sopro dos aborígenes australianos).

Durante a noite, o Caramelo (lembra dos nossos guias caninos?) entrou no boteco e deitou-se embaixo de nossa mesa. Foi uma cena engraçada e inusitada, sem dúvida.

Quando a banda decidiu ir embora, não só a gente, mas todos do bar, resolveram ir também. A galera ia tocar em outro bar, portanto formou-se um grande "bonde do rock".

Sei que nessa noite visitamos uns 3 bares! E por mais estranho que pareca, nunca me senti tão seguro e despreocupado em um lugar estranho como lá em STdL.

Não vimos nenhuma briga ou confusão. Conversamos com muita gente, todos muito bacanas, um mais Maluco que o outro. 

Chegamos de volta da Noite Rock'n Roll no finzinho da madrugada, dormimos um pouco, já que iríamos embora no domingão.

Pegamos um ônibus em STdL até Três Corações e de lá um pra São Paulo.
Embarcamos as bikes em ambos os ônibus sem qualquer problema ou impedimento.

Embarcando as magrelas em Três Corações, rumo a São Paulo
Fizemos uma viagem bastante tranquila, desembarcamos no Terminal Tietê do Metrô e de lá baldeamos até a Estação Barra-Funda.
De lá, embarcamos nos Trens da CPTM, com destino a Itapevi. John e Pedro iriam até lá e seriam resgatados pela Esposa do Pedrão, enquanto eu iria até Barueri.

Essa viagem foi uma experiência e tanto pra mim. Arrisco dizer que também foi assim para meus Intrépidos Companheiros de Pedal.
Mal vejo a hora de fazer uma cicloviagem assim!

Meus agradecimentos ao John e Pedro pela excelente companhia e pra toda a galera que contribuiu de alguma forma para que a viagem fosse o sucesso que foi.

Grande abraço e até a próxima!!!

4 comentários:

Maya disse...

Até que enfim!!!

Queria muito ter ido com vocês! Mas deixa os feriados de 2012 chegarem! Certeza de que teremos várias viagens gostosas!!

Loureiro disse...

Beleza de viagem... com certeza vai servir de inspiração pra minha cicloviagem de inverno...

abração

canelas disse...

Parabéns !!! Excelente cicloviajem e excelente relato. Gostei demais !!! Abç.

Reinaldo Bertelli disse...

Muito legal o relato e o blog!
Sugiro que a próxima ida a STL seja de ônibus levando MTBs. Lá existem incontáveis cachoeiras, trilhas e outras atrações para ir de bike.
Dêem uma olha num roteiro que iremos fazer em breve.
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Abraços e parabéns pelo blog.