terça-feira, 2 de outubro de 2012

De Santiago à Mendoza - Parte 2

Los Andes - Los Caracoles
¡Buenas, Hermano(a)s!

Depois de uma noite bem dormida, acordamos para um dia um tanto incerto: subir ou não subir Los Caracoles?
Estávamos preparados pra acampar, caso fosse necessário, mas havia um desejo de cruzá-lo naquele mesmo dia.

Bom, como não dava pra prever como nos sairíamos nos 45km até o pés dos Caracoles, fomos tocando pra ver o que ia dar.

Ficamos um tempão nos despedindo dos donos do Hotel, arrumando as tralhas e eis que só zarpamos mesmo as 10:30hrs.
Arrumando as tralhas na frete do Hotel
Pedal tranquilo, apesar de sempre "pra cima". Saímos de 850m altitude e, caso fossemos até o início de Los Caracoles, subiríamos até mais ou menos 1800m, ou subiríamos até 3200m se fossemos até a fronteira, que é onde termina a tão aguardada sequencia de curvas!

Engraçado perceber como o caminho ia ficando diferente: A medida que nos aproximávamos da Cordilheira, a vegetação ia ficando mais rala, a terra mais árida e a quantidade de movimento de carros e transeuntes ia rareando.
O que crescia mesmo eram a inclinação! hehehe!

Como estávamos sempre subindo, adotamos um ritmo tranquilo...só no girinho, aproveitando muito pra bater papo ou simplesmente olhar em volta. E digo pra vocês, havia muito o que ser visto!
Cordilheiras ainda ao longe...mas a gente chega lá!
Davi terminando uma subidinha de respeito!
Artur no fim da descida, aproveitando o embalo
De repente, começaram a surgir as placas mais assustadoras do caminho:
Caminho de Montanha. Tome Cuidado. Gradiente Forte Prox. 55km.
A partir desse ponto, tínhamos certeza que não iríamos enfrentar Los Caracoles naquele dia...

Em algum ponto da estrada, perto da hora do almoço, encontramos uma pequena "birosca". Paramos nela pra comer "huevos revueltos, pan e café" (ovos mexidos, pão e café).
Olha o naipe do Davi, de perninha cruzada...
Depois de reabastecer, pneus na estrada (como diria meu amigo Antigão).
Sobe, sobe, sobe...Só no Girinho! Afinal, já estava decidido que acamparíamos...não tínhamos pressa!

Com 25km pedalados, resolvemos dar outra paradinha pra tomar uma água. 
Ficamos de papo um baita tempo, sentados no guard-rail da rodovia...e justo na hora que iríamos voltar pra estrada...pneu dianteiro da Só no Girinho estava murcho.
Bora lá...aproveitar pra trocar o pneu, inclusive.
Como meu pneu estava rasgado na lateral, aproveitei pra trocar pelo que comprei no primeiro dia de pedal.

Pneu/câmara trocados, vamos tocando...
Passamos por trechos bem bonitos, calmos e incrivelmente silenciosos...


Pedalar tranquilamente em vias tão bem pavimentas, com belíssimas paisagens e quase sem barulho de gente/carros/caminhões é sensacional.

Nem tudo foi subida! Acho que lá pelo km 29 pegamos um trechinho bem curto de decida...seguidos por mais uns 7km subindo suavemente, até uma espécie de barreira policial. Vários caminhões enfileirados, aguardando pra seguir...e logo mais à frente, mais uma daquelas placas que assustam:
E tome subida!
Não rodamos nem 4km dessa placa e fomos saudados por mais uma....do tipo que tira sorriso dos lábios, mas causa um pequeno tremor nas pernas...
Como assim "Alta Montanha Extrema"? Goddammit!
Paramos pra tirar várias fotos e já começamos a olhar em volta, procurando um bom lugar para acampar.
Essa atenção na estrada nos rendeu uma imagem bem "pitoresca", uma placa até então desconhecida pra gente:
Salto Ornamental c/ Carro? Naaaaah!
Mais um pouco...cerca de 3km depois do "Trecho de Alta Montanha Extrema", encontramos o que seria o início do tão aguardado "Los Caracoles": O primeiro "cobertizo", de um total de 6, se a memória não me falha.
Ao seu lado, uma estrada de emergência, sem asfalto, junto a uma espécie de "garganda", com o Rio Aconcágua correndo lá embaixo.
Como cheguei primeiro, fiquei olhando...logo o Artur chegou e "leu" meus pensamentos...

Não era muito tarde, perto de 16:30hrs, mas o frio já estava dando-nos boas-vindas. Ventava bastante, então a primeira preocupação era encontrar um lugar que desse alguma proteção contra esse vento.

Enquanto esperava o Davi chegar, desci a tal garganta pra ver se era possível acampar lá embaixo.
O terreno era bem acidentado, muitas pedras grandes e cascalho solto. Apesar disso, encontrei uma área relativamente plana e decidimos que ficaríamos ali mesmo.
Inclusive, o local tinha vestígios de uma fogueira, um grande pedaço de papelão, indicando que outros já utilizaram aquele lugar para acampar.
Cobertizo visto do fundo da garganta
A vista da nossa "varanda"
Amarramos as bikes na parte superior da garganta, escondidas de quem passava na estrada e logo depois começamos a descer as tralhas.
Bikes amarradas no topo da garganta, escondidas de quem passa na estrada.
Hora de montar as barracas!

Algo que me impressionou bastante durante a "inspeção" do lugar, foi ter visto flores nascendo em meios às pedras. Eu não sou especialista, mas Davi e eu concordamos que seriam orquídeas!
Além de varanda, tínhamos um pequeno jardim...
Com o acampamento montado, hora de pegar água para beber e cozinhar! O Rio Aconcágua nos cedeu sua água limpinha e gelada. Confiamos tanto que só nos preocupamos em passa-la por um filtro mecânico (um simples filtro de café, sabe?), para remover sólidos, como pedrinhas e afins.
Enchemos um dromedário de 4L e as caramanholas.

Depois disso, vamos começar o preparo do rango!!! O Artur insistiu em testar sua espiriteira de titânio+álcool isopropílico, mas o vento estava tão forte que demorou pra pegar, enquanto o Davi, com seu fogareiro à gás mandou ver rapidinho o rango dele e meu.

Se vocês leram o relato 1, devem lembrar que eu estava carregando, além de parte do suprimento de comida, uma caixa longa-vida de 2L de Vinho Santa Helena!
Pois bem...eis que esse foi o vinho que esquentou nosso fim de dia!
Olha o rango saindo...
No Menu: Macarrão com Atum e Vinho Santa Helena...ahahaha!
Esse vinho nos rendeu momentos divertidíssimos! Valeu muito a pena subir com ele na bagagem!
Depois do rango, ficamos um baita tempo bebendo, falando asneiras, até que a noite chegou, trazendo mais frio, inclusive.
Entramos nas barracas e rapidamente fomos vencidos pelo cansaço.

No meio da madrugada, eu acordei e, apesar do frio (algo entre  0 e -2ºc), não resisti a enorme vontade de ver o céu, que estava ricamente estrelado, apesar de muito claro.
Eu nunca tinha visto aquele tom de azul no céu em toda a minha vida. Aquilo me emocionou bastante. 

Passei poucos minutos fora da barraca, mas o pouco tempo foi suficiente pra me maravilhar com a grandiosidade da natureza e para mais uma vez perceber o quão insignificante somos frente à ela.

Pode soar piegas, mas essa cena foi (pra mim) uma daquelas em que você para pra se perguntar sobre "o segredo da Vida, do Universo e tudo mais."

Mesmo sem respostas, voltei pra dentro da barraca, feliz pra caramba, com a certeza de que ainda tinha muito pra eu me maravilhar nos próximos dias!

Stats:

Total Percorrido: 44,5km
Ride Time: 03:29'30"
Trip Time: 06:02'
Média: 12,8km/h
Máxima: 52,3km/h
Desnível: +1408/-564m
Baixas: Furo no pneu dianteiro do FabioTux.